O voo do besouro

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    Publicado originalmente em: https://www.baguete.com.br/noticias/o-voo-do-besouro


    O voo do besouro

    Leopoldo Carvalho Correia de Lima

    Publicado em: 12 de março de 2026 - 12:20

    Uma vez chamaram alguém de besouro.

    Não foi exatamente um elogio. Também não foi uma ofensa simples. Foi uma daquelas frases que ficam ressoando porque carregam mais verdade do que o próprio autor talvez tenha percebido.

    “Você não tem formato para voar. Mas voa bem.”

    Com o tempo, essa frase revelou mais do que parecia. Revelou algo sobre carreira, liderança e construção de valor.

    O mundo corporativo, técnico e acadêmico gosta de formatos previsíveis. Gosta de encaixes fáceis. Gosta de reconhecer rapidamente quem parece pronto, quem parece executivo, quem parece inovador, quem parece especialista, quem parece líder.

    O problema é que parecer nunca foi a mesma coisa que ser.

    Há pessoas com o formato perfeito da performance e nenhuma sustentação real. E há pessoas que, vistas de fora, parecem improváveis — até começarem a operar.

    Quando operam, mudam a sala.

    Por isso o besouro virou uma metáfora poderosa de posicionamento profissional. Não pela estética. Pela entrega.

    No fim, a pergunta mais importante nunca foi se alguém tem o desenho esperado. A pergunta real é outra: quando a complexidade chega, quem de fato levanta voo?

    Essa é a pergunta que separa discurso de substância.

    Ao longo de trajetórias longas, um padrão se repete: a supervalorização do verniz. O vocabulário certo. O slide certo. O cargo certo. A imagem certa. O enquadramento perfeito. Tudo isso tem seu lugar. Mas nada disso substitui a capacidade de entrar em cenários ambíguos, organizar o caos, construir direção e entregar resultado.

    É aí que o besouro aparece.

    Ele não pede licença para o espanto alheio. Não negocia com a expectativa dos outros. Simplesmente voa.

    Esse tipo de trajetória carrega uma marca: aprender a não depender da leitura superficial do ambiente para validar a própria potência.

    Primeiro resolve.

    Depois percebem.

    Depois tentam explicar.

    Só então chamam de talento aquilo que, por muito tempo, foi tratado como excesso, estranheza ou desalinhamento.

    Existe uma armadilha silenciosa na vida profissional: adaptar-se demais ao olhar externo. Quem passa tempo demais tentando parecer o que esperam começa a amputar justamente aquilo que o tornaria singular.

    Muita gente brilhante reduz linguagem, suaviza ambição, esconde profundidade, poda repertório — tudo para caber no molde. Para ser aceita mais rápido. Para não parecer intensa demais, técnica demais, estratégica demais, híbrida demais.

    Só que o diferencial costuma morar exatamente naquilo que o olhar apressado estranha primeiro.

    O que chamam de excesso pode ser amplitude.

    O que chamam de mistura pode ser síntese.

    O que chamam de não convencional pode ser vantagem competitiva ainda não compreendida.

    No mundo real, pouco importa se a trajetória foi linear. Pouco importa se o perfil é híbrido. Pouco importa se houve mistura de tecnologia, arte, negócio, operação, estratégia, ensino, execução e reinvenção.

    Se entra, entende, conecta, constrói e entrega, voa.

    E, quando voa com consistência, vira referência.

    Mas o besouro tem um defeito.

    Ele não manobra bem parado. Não impressiona em repouso. Visto sem movimento, parece apenas um bicho estranho e desengonçado. Sua potência quase nunca se revela na vitrine. Ela se revela na operação.

    E isso tem um custo real.

    Ambientes que nunca colocam o besouro em movimento tendem a subavaliá-lo permanentemente. Quem não o vê operar, não entende o que ele é. E nem sempre o contexto certo aparece na hora certa.

    O besouro precisa de pista.

    E, às vezes, essa pista é negada, atrasada ou sequer reconhecida como pista.

    Esse é um risco genuíno. Não uma desculpa. Um risco.

    Mesmo assim, posicionamento profissional não é sobre convencer os outros de que você voa. É sobre operar de um jeito tão consistente que o voo se torna impossível de negar.

    Com defeitos.

    Com formato estranho.

    Com uma trajetória que o mercado nem sempre sabe nomear.

    O besouro não foi feito para impressionar parado.

    Foi feito para entrar em movimento.

    E, quando entra, voa.


    * Leopoldo Carvalho Correia de Lima é executivo sênior de tecnologia, arquiteto corporativo e especialista em GenAI aplicada a negócios, com mais de 25 anos de experiência em arquitetura de sistemas, integração, inteligência artificial e transformação digital. Ao longo da carreira, atuou em setores críticos e regulados, como energia, utilities, telecomunicações e varejo, conectando visão estratégica, profundidade técnica e execução prática.